|
|
![]() Fotos: Divulgação, Antonio Milena e Ricardo Fasanello |
|||
|
Nesta semana, ao
ligar o rádio, você ouvirá o refrão
Ela fez a cobra subir,
a cobra subir, a cobra subir
Ela fez a cobra subir,
a cobra subir, a cobra subir.
Descaradamente copiado de um velho sucesso de Jorge
Mautner e Robertinho do Recife, o estribilho faz parte da
música Ralando o Tchan, novo lançamento do grupo
de Carla Perez. Ao ligar a televisão, você irá
assistir, no programa de Hebe Camargo, na terça-feira,
ao lançamento do CD Toma Juízo, de Zezé Di
Camargo & Luciano. A essa altura, a música com seu
refrão meloso
Toma cuidado
A vida muda o jogo de repente
Toma juízo
Me ajuda a consertar o amor da gente
também estará tocando nas rádios. Para vender 3
milhões de cópias do novo CD do É o Tchan, com
lançamento previsto para daqui a três semanas, a
gravadora PolyGram, maior multinacional do disco no
Brasil, está investindo cerca de 800.000 reais. A Sony,
gravadora de Zezé Di Camargo & Luciano, segunda
colocada no ranking, está gastando perto de 600.000. O
grupo baiano e a dupla goiana são as grandes estrelas da
indústria fonográfica atual. Ambos são a prova em
carne e osso de que, para subir ao topo das paradas,
faturar milhões e se tornar motivo de amor e paixão da
platéia, talento é condição necessária para vencer
mas está longe de ser suficiente ou mesmo determinante.
Fabricar um sucesso custa caro. Nos dias de hoje, um
estouro musical não sai por menos de meio milhão de
dólares. Como qualquer empresário, em qualquer ramo de
negócio, ninguém investe esse dinheiro sem um controle
rigoroso de todas as etapas de fabricação do produto.
Por isso, um sucesso artístico é cada vez mais fruto de
muito planejamento e pesquisa, de um trabalho
profissional em equipe.
Por trás de cada
um desses sucessos existe uma grana pesada. Recentemente,
a empreitada do mercado que demandou mais dinheiro foi a
ressurreição dos Titãs. Há quatro anos fora das
paradas, a banda precisou de um estímulo de 1,75 milhão
de reais para sair do chão. O grosso do investimento
saiu do bolso do empresário Manoel Poladian, um
reconhecido especialista em recuperar carreiras em
declínio, à custa de muito sangue, suor e verbas.
Poladian investiu 750.000 reais no novo show da banda,
que há três semanas iniciou uma excursão pelo país. O
restante do dinheiro saiu da gravadora Warner e do canal
de televisão MTV, co-produtor do CD Acústico. A
Warner gastou meio milhão de reais na produção do
disco. A MTV, outros 500.000 na realização do show que
deu origem ao disco. Foi contratada até uma orquestra de
48 músicos, fora convidados como o antigo líder Arnaldo
e Marisa Monte. Em dois meses, o show já foi reprisado
oito vezes na programação da emissora. Do especial, a
MTV ainda retirou videoclipes com as principais músicas.
Mostrados na emissora cerca de nove vezes por semana,
sempre em horários nobres, e ganhando destaque dos VJs,
os videoclipes chamaram a atenção dos programadores de
rádio, catapultando o disco para os primeiros postos de
execução. Claro que nada disso teria dado resultado se
não se tratasse de um ótimo CD. Depois de muito tempo
fazendo música barulhenta, os Titãs suavizaram seu som,
produzindo uma coletânea obrigatória na coleção de
toda pessoa que gosta de rock brasileiro. Mesmo por trás
de tanto talento musical, contudo, enxerga-se o talento
empresarial de Poladian. "Eu disse que eles tinham
de tocar uma música pop mais leve. É disso que o povão
gosta", vangloria-se o empresário. O CD Acústico,
com 750.000 cópias vendidas, já é o mais bem-sucedido
da história da banda, deixando bem atrás clássicos do
rock nacional como Cabeça Dinossauro (320.000) e Jesus
Não Tem Dentes No País dos Banguelas (180.000).
Dono de um olho lendário para enxergar no ídolo
decadente de hoje o astro fulgurante de amanhã, e com
isso formar seu próprio patrimônio, Poladian é um
autêntico investidor
compra na baixa e vende na alta. Pagou pelos shows dos
Titãs um cachê de 10.000 reais por apresentação. Com
o sucesso do grupo, agora ele revende cada espetáculo
por 70.000 reais.
![]() Fotos: Xico Buny, Antonio Milena, Eduardo Albarello e Leonardo Carneiro |
O empresárioFranco Scornavacca: o campeão dos sertanejos vendeu Leandro & Leonardo e Zezé & Luciano para um público urbano e formatou Maurício Mattar |
Utopia
O trabalho de construção do sucesso começa cedo,
às vezes antes que uma banda recém-nascida tenha sido
batizada. Assim como existem os olheiros do futebol,
especializados em descobrir craques escondidos na
várzea, existem os "descobridores" de artistas
tipos humildes, que freqüentam
casas noturnas jovens e baratas, agüentam muito barulho
ruim até colocar as mãos numa pedra que, polida,
trabalhada e redesenhada, em geral não passa de cascalho
mas, às vezes, é mesmo uma pepita. O mais famoso
integrante da categoria é o produtor Rick Bonadio. Em
1990, Bonadio, hoje diretor artístico da gravadora
Virgin no Brasil, conheceu um grupo de quatro rapazes da
periferia de São Paulo que faziam uma imitação
medíocre do rock do Legião Urbana. O Utopia era tão
ruim que provocava risadas na platéia. Anos mais tarde,
a turma foi ao estúdio que Bonadio possui no bairro
paulistano do Tremembé para gravar um disco independente
de música brega. Nos intervalos a turma fazia uma
bagunça que levava os técnicos de som às gargalhadas.
Foi então que Bonadio sugeriu que os rapazes
transformassem o besteirol dos bastidores no prato
principal de sua música
e
foi assim que nasceram os Mamonas Assassinas.
Como todo
garimpeiro, o sonho do descobridor é colocar o conjunto
novo em sua bateia e fazer a fortuna crescer sem parar.
Foi assim com Fernando Furtado, um dublê de jornalista e
publicitário mineiro que, em 1992, assistiu de camarote
à ruína de uma banda de rock chamada Pouso Alto.
Furtado sugeriu a seu líder, um certo Samuel Rosa, que
mudasse de ramo, trocando o rock pelo reggae. Sugeriu
também o nome da banda
Skank, uma gíria que designa um tipo mais potente de
maconha. Hoje é o empresário do grupo. O baiano Luiz
Carlos Fernandes Adan, 34 anos, conhecido como Cal Adan,
costuma dormir às 5 da manhã, depois de percorrer todas
as casas noturnas de Salvador em busca de novos talentos.
Quando vê algo um pouco mais brilhante na escuridão
geral, chama para uma conversa na sua produtora, a Bicho
da Cara Preta. Foi assim que trouxe à luz grupos como
Companhia do Pagode (da Dança da Garrafa), Cafuné e É
o Tchan. No caso deste último, Cal Adan ajudou a
escolher o repertório e sugeriu que as bailarinas, uma
loira e uma morena, usassem um shortinho curto e uma
camiseta justa. "Queria uma roupa que fosse sensual
sem ser muito vulgar", diz ele, sem ser muito
convincente. Hoje, Cal Adan tem uma empresa em sociedade
com os vocalistas Washington e Beto Jamaica, do É o
Tchan, que cuida da carreira dos três grupos, com cerca
de 200 apresentações por ano. Estima-se que a empresa
fature 4 milhões de dólares anualmente.
O
"new-jabá"
Depois de descoberto, o artista ou grupo chega à
gravadora
e é aí que, turbinado por
investimentos milionários, deslancha o processo de
fabricação do sucesso. Tudo é minuciosamente
planejado. "Até seu lançamento no mercado, daqui a
três semanas, o novo CD do É o Tchan deverá ser tocado
cerca de 10.000 vezes em todo o país", prevê
Marcelo Castello Branco, presidente da PolyGram
brasileira. A gravadora mandou fabricar nada menos que
4.000 discos tipo amostra grátis com a música Ralando
o Tchan para serem distribuídos às rádios e boates
de todo o país. Para garantir o estouro no rádio,
recorre-se ao procedimento conhecido como
"new-jabá", muito mais sofisticado (e caro) do
que subornar um programador de rádio enviando-lhe alguns
caraminguás dentro de um envelope lacrado.
![]() |
| Fotos: Oscar Cabral, Elena Vettorazzo e Fernando Vivas |
|
||
| Foto: Bia Parreiras |
Com parte dos
800.000 reais da verba de lançamento para o É o Tchan,
a PolyGram irá fornecer às emissoras de rádio brindes
para que elas promovam sorteios entre seus ouvintes. A
linha bem povão aparece logo aí: de norte a sul do
país serão toneladas de botinhas e shortinhos iguais
aos de Carla Perez, e também pacotes de viagem para o
Egito
o figurino da nova produção da
banda é inspirado num harém. Movidas pelo interesse que
esses sorteios despertam nos ouvintes, fazendo a
audiência subir sem criar novas despesas, as emissoras
entram na promoção. A Sony, gravadora de Zezé Di
Camargo & Luciano, estará fazendo três promoções
com as rádios: "Viaje no jatinho de Zezé &
Luciano", "Conheça a fazenda de Zezé Di
Camargo" e "Zezé Di Camargo irá visitar sua
casa".
A rádio é a etapa
inicial, mas a grande batalha se trava na televisão. Os
espaços mais cobiçados são a trilha da novela das 8, o
clipe do Fantástico e o programa de Fausto Silva,
todos na Rede Globo. Ali vale charme, conversa fiada,
amizade e troca de interesses. Em programas de primeira
linha, VEJA nada apurou que indicasse negócios a
dinheiro
reservados, aparentemente, a
apresentadores-camelôs que também se alugam para
empresários e até políticos. À TV interessa tanto,
que ali o artista canta de graça
coisa que muitos não fazem nem para a família. As
gravadoras lutam como podem. Quando descobrem, por
exemplo, o tema da próxima novela da Globo, enviam
contêineres de fitas gravadas para o
mestre-de-cerimônias musical Mariozinho Rocha. As
ofertas são tantas, que os mandachuvas das companhias
entram na operação. Roberto Augusto, presidente da Sony
brasileira, telefonou ele próprio para Mariozinho
solicitando a inclusão da música À Primeira Vista,
com Daniela Mercury, na trilha da novela O Rei do Gado.
Acabou atendido. Luiz Oscar Niemeyer, presidente de outra
gravadora, a BMG, suou para ver Zé Ramalho, com seu
sucesso de vinte anos atrás Admirável Gado Novo, incluído
na trilha sonora da mesma novela. Resultado: o cantor
paraibano vendeu como nunca em sua carreira, 1 milhão de
discos. Uma tarde no Faustão é caso de vida ou morte.
Convidado na última hora para se apresentar num domingo,
o conjunto Só Pra Contrariar ficou em dúvida: no mesmo
dia, tinha uma apresentação no Rio Grande do Sul. A
gravadora não hesitou. Bancou a viagem de ida e volta
num jatinho. Eles cantaram no domingo à tarde e, no
mesmo dia, à noite, estavam no Sul.
Metendo a
colher
Um dos mais curiosos casos na TV tem o dedo de Francesco
Scornavacca, o Franco, empresário de Zezé Di Camargo
& Luciano e responsável pelo estouro de Leandro
& Leonardo. Ele pegou os ex-plantadores de tomate no
início da carreira, quando faziam sucesso em feiras
agropecuárias mas necessitavam do aval da turma A e B.
Foi então que Franco resolveu incluir um clipe da dupla
no Fantástico através de um golpe maroto.
Primeiro passo: alugou uma casa noturna de prestígio, o
Palace, em São Paulo. Depois, convenceu o Fantástico
de que o público de sua dupla era de classe média
alta, tanto que iria lotar a casa. A emissora carioca
resolveu pagar para ver. Na véspera do dia combinado,
Franco telefonou para o Palace e constatou, alarmado, que
só tinham sido vendidos 260 ingressos da lotação de
1.700. Não se apertou. Ligou para um amigo que convocava
claques profissionais para programas do SBT. Fretou
vários ônibus e preencheu as vagas restantes. Na semana
seguinte à exibição do clipe, Entre Tapas e Beijos
estourou em todo o país. "O Fantástico foi
decisivo para dar credibilidade à dupla", conta
Franco, que se refere à operação com orgulho.
Outro estouro
recente, o do rapper Gabriel o Pensador, é fruto de uma
longa negociação entre ele e a gravadora Sony. Embalado
pelo sucesso de Lôraburra, o músico passou a
fazer canções com muito protesto e denúncia. O segundo
CD foi um fracasso e, na hora de fazer o terceiro, o
compositor parou no departamento de marketing.
"Avaliamos que ele tinha perdido o contato com os
jovens da geração shopping center", diz Roberto
Augusto, presidente da gravadora. "Eles não gostam
de letras quilométricas. Queriam músicas parecidas com
a Lôraburra", conta Gabriel. O CD, lançado
há um mês, já vendeu cerca de 300.000 cópias. E a
música 2345meia78 toca nas rádios
incessantemente. "É claro que não damos palpite no
trabalho de artistas como Chico Buarque, mas, tirando ele
e uns outros poucos, todos têm o nosso dedo",
comenta o veterano Miguel Plopschi, hoje diretor
artístico da Sony depois de passar por várias
gravadoras. Recentemente, Plopschi convenceu Martinho da
Vila a deixar o batuque de raízes e gravar samba
romântico
com três décadas de
carreira, Martinho vendeu como jamais o fizera. Marcos
Maynard, ex-presidente da PolyGram brasileira, foi quem
sugeriu a Caetano Veloso que reunisse um repertório de
músicas latino-americanas. Assim nasceu Fina Estampa,
cerca de 400.000 cópias vendidas, o maior sucesso de
sua carreira.
|
||
| Fotos: Adriana Pitiglini eFernando Vivas |
Entre a gravadora e
o caçador de talentos existe uma terceira figura de peso
os empresários. Eles investem
dinheiro em doses cavalares, e, para garantir o lucro,
encarregam-se de gerir toda a carreira do artista, do
visual ao repertório. Francesco Scornavacca é o
campeão dessa turma no meio sertanejo e responsável
pela formatação de vários artistas populares, como
Maurício Mattar. Por sugestão sua, o bonitão Leandro e
o gorducho Leonardo começaram a usar camisas de gola
rulê com blazer, num figurino que pode ser batizado de
"caipira-existencialista". Hoje, Zezé Di
Camargo & Luciano seguem o mesmo caminho. Já Mário
Gomides, do Raça Negra, é pioneiro em outro
procedimento. Para tocar em rádio, pediu a seus
contratados que gravassem versões especiais das
músicas, citando o nome da emissora. Hoje, todo mundo
faz isso. Gomides é um dos responsáveis pelo estouro do
Raça Negra em rádio. O grupo passou a tocar muito
graças ao investimento de 300.000 reais que fez em
promoções para a platéia povão das emissoras.
Compra e
venda
Entre os empresários, Manoel Poladian é conhecido por
ter levado para o meio artístico o mesmo método da
bolsa de valores: comprar na baixa e vender na alta.
Além dos Titãs, fez isso também com Jorge Ben Jor.
Pagou ao artista 500.000 reais por um pacote de
cinqüenta shows
10.000 por
apresentação. Com o sucesso, o cachê subiu para
50.000. Mesmo levando em consideração que Poladian arca
com os custos operacionais, o lucro é extraordinário.
Poladian cobra cada centavo do que investe. Os Titãs,
hoje em dia, chegam a fazer seis shows por semana, às
vezes dois num único dia.
Assim como o
empresário gosta de quem está em baixa e foge de quem
está na alta, os artistas realizam um movimento parecido
de rupturas definitivas e reconciliações calorosas
também em função de altas e baixas. Entre os que
romperam com Poladian estão Guilherme Arantes e Lobão.
Rita Lee brigou com o empresário há dez anos, por achar
que ele estava faturando demais em cima dela, e resolveu
montar sua própria estrutura de shows. Hoje, voltou aos
braços de Poladian. O investimento em seu novo
lançamento, o disco e o show Santa Rita de Sampa,
foi de cerca de 1 milhão de reais. O sucesso ainda não
é o esperado
50.000 discos vendidos em
um mês.
Existem casos de sucesso em que é legítimo suspeitar que se está diante de uma pura armação empresarial, sem nada de valor por trás. A banda inglesa Spice Girls, criada num laboratório de negócios que escolheu as cinco garotas do grupo levando em conta até critérios raciais para alcançar maior público, mostra que isso é raro mas possível. O mais comum é o sucesso com talento, que interessa à máquina de dinheiro porque dura mais. O caso Daniela Mercury é exemplar. Quando ela estourou, era contratada de uma gravadora pequena, a Eldorado de São Paulo. Num show no Museu de Arte de São Paulo, em 1991, a afluência de público foi tão grande que parou a Avenida Paulista. No dia seguinte, Daniela assinava contrato com a Sony. Daí para a frente ela só fez crescer. O CD seguinte, produzido por Liminha, vendeu 1 milhão de cópias. Nas mãos de Manoel Poladian, percorreu o país em uma megaturnê. Um cantor, ou mesmo uma tendência, não é lançado no mercado apenas em função de pesquisa ou maquinações de gravadoras. "O bom artista é aquele que, antes de chegar à gravadora, já tem seu público, o que mostra que há talento, há alguma verdade interior, coisa que nenhum projeto de marketing é capaz de criar do nada", teoriza Roberto Augusto.
Com
reportagem de Celso Masson, de São Paulo,
Cíntia Campos,
de Salvador, e Roberta Paixão, do Rio de
Janeiro
Copyright © 1997, Abril
S.A. |