
A fama, situação com que muitos sonham, pode ter o seu lado e complicado, principalmente quando as luzes se apagam e a realidade vem à tona. Em uma conversa, momentos bons e engraçados de quem não "botava fé" em si próprio e comenta as partes críticas da vida de alguém que é bem sucedido, respeitado e, além de tudo, famoso.
FIRE ROCK - Você é um cara que não só tem muita fama como também respeito do público, e por isso, você é sempre reconhecido. Como você faz para conciliar situações de quando você está a fim de sair e ser o cidadão Roger, e as pessoas te tratam como o Roger do Ultraje a Rigor?
ROGER - No começo eu não notava essa diferença, parecia que era tudo a mesma coisa, e na verdade é porque eu não faço um gênero específico para estar no palco. Se bem que às vezes eu me sinto melhor no palco do que fora dele.
E depois de algum tempo eu comecei a notar esse sentimento de não querer ser o Roger do Ultraje. Esse meu lado de me julgar pelos feitos do Roger do Ultraje é ruim.
A gente anda meio sumido então, as pessoas me param na rua - e elas na verdade não me conhecem pessoalmente elas só conhecem o meu trabalho - e falam: "Pô, tá sumido!". Isso dá a idéia de que eu como pessoa, embora não seja muito distinto do eu como Roger do Ultraje, também estou sumido ou, que eu não esteja indo bem na vida porque o Ultraje não está agora em evidência, e não tem nada a ver uma coisa com a outra. Isso às vezes é complicado.
Eu tenho pensado muito nisso. Agora pela primeira vez em, de uns seis meses pra cá, eu estou pensado em não levar tanto a sério o Ultraje a Rigor, nesse aspecto. O Ultraje é uma coisa que eu gosto, é a minha vida...Mas eu gostaria que não fosse o tempo inteiro, porque normalmente eu assisto um programa, e penso que poderia dar uma música. Pô, eu tenho minha vida particular....
FR - As pessoas te cobram uma atitude de roqueiro?
R - Às vezes cobram. Há muito tempo atrás, quando eu construí esta casa, o arquiteto queria fazer umas coisas muito esquisitas, e eu não quis. Aí o cara falou: "Pô, mas você é um roqueiro muito louco...". Não tem nada a ver uma coisa com a outra. E isso às vezes me incomoda: as pessoas se acharem íntimas minhas, quando na verdade não são. Eu posso ser muito louco no sentido figurado, uma pessoa que não tem a vida tão normal quanto a dos outros, mas no fundo eu tenho. Tenho conta pra pagar, casa, problemas domésticos, e as pessoas acham que eu tenho que viver na esbórnia (risos).
Muito pelo contrário, eu sou um cara caseiro. Então às vezes essa cobrança começa a incomodar.
Eu até brinco muito, que se um cara é dentista, ninguém para ele na rua e diz: "Pô, eu não tenho visto as suas obturações por aí!!!". (risos).
FR - E com relação ao assédio? Não te incomoda as pessoas te reconhecerem e repararem em você?
R - Isso das pessoas repararem em mim, e´ estranho. Você entra numa loja, o cara quer saber o quanto você vai gastar, ou que tipo de coisa você compra. Ou você está num restaurante, o cara fica olhando. E é mais rápido você dar atenção pra pessoa - na verdade eu gosto de dar esse tipo de atenção - do que você explicar pro cara que agora não, porque você está na sua vida particular...O que mais me enche o saco, e o que é moda hoje em dia, é quando pedem coisa do tipo: "Ah, me dá esse anel, essa pulseirinha, essa camisa...".
FR - No começo o que mais te incomodou?
R - No começo nada me incomodava, porque era esse o nosso objetivo, e era o máximo! A idéia inicial da gente era de brincar de Beatles. Sem a pretensão de ser como eles! A gente era uma banda de cover dos Beatles, assistia filmes deles. Aquela coisa de perseguição, chegar num lugar e ter tumulto...Era tudo muito divertido! Então a gente achava engraçado as pessoas quererem entrevista, tratar super bem. A gente mesmo não acreditava muito.
FR - Como é que ficaram as suas relações estabelecidas antes da fama?
R - Um dos problemas, que não está ligado à fama mas sim, à carreira, é que eu estou normalmente disponível no meio da semana, quando os meus amigos estão de folga eu estou trabalhando. Então o círculo social fica meio difícil de manter... Um outro problema é quando você sai com um amigo e está conversando com ele e tem que dar atenção a outra pessoa. Às vezes é meio chato, por mais que seu amigo te entenda.
FR - Você já teve algum grilo por achar que as pessoas se aproximam de você porque você é famoso?
R - Não, porque os meus amigos, namorada, são tudo de antes. Mas com o tempo a gente fica mais descolado e aprende a dar uma dispensada educada nas pessoas.
Esse é um meio muito falso, na hora em que você está lá em cima, todo mundo é seu amigo. Depois o cara esquece. Essa coisa me agride um pouco... Tem hora que você tem que ser praticamente igual a um político: você odeia um cara e tem que ser amigo, ou o cara te odeia e finge que gosta de você.
FR - O que é pra você um sacrifício pela fama, ou seja, o preço mais caro da fama?
R - Não sei, eu separo sucesso da fama, pois você pode ser famoso sem ser bem sucedido. O que é um sacrifício, é que, teoricamente, esta é uma profissão em que você não tem patrão, mas na prática, é a profissão que tem mais patrões. Mas eu acho que o sucesso traz muito mais coisas boas do que ruins.
Só pelo fato de você saber que você faz alguma coisa grande...E é muito raro alguém vir falar comigo pra me pixar! A maioria gosta, acha legal! Mesmo quando cobra algum disco novo, é porque gosta e quer ouvir coisa nova.
FR - Você acha que vale tudo pela fama?
R - Não, principalmente se for só pela fama, como tem muita gente hoje em dia. A fama de um cara não se baseia em nada, em uma carreira sólida ou em um caráter. O cara pode ser famoso porque matou outro. Eu mesmo não fiz tudo pela fama, tipo fazer média, demagogia...Eu acho que isso me trouxe algum tipo de complicação.
FR - Com todos os problemas que estão acontecendo agora com o Sepultura, a gente não pode deixar de ficar imaginando se sem o vocalista a banda vai funcionar com o mesmo sucesso. Você acha que o vocalista é a cara da banda e a saída dele é uma ameaça a continuação da banda?
R - Aqui no Brasil, eu acho que dão mais valor ao vocalista. Tem algumas bandas em que o vocalista é tão importante que fica difícil mesmo. No Ultraje, eu nunca quis ser o vocalista principal porque como eu falei, a gente era super fâ dos Beatles e todos cantam. Mas aconteceu que eu cantava menos pior que os outros, as letras eram melhores interpretadas por mim, e fui ficando (risos).
